sexta-feira, 13 de maio de 2011

A difícil arte de perdoar




O perdão é uma das atitudes mais difíceis que o ser humano encontra para pôr em prática.
Quando nos magoamos com alguém, diferentes níveis de sentimentos transitam em nosso interior. Desde decepção, passando por rancor, e chegando até mesmo ao ódio.

O ato de perdoar é um exercício de intenso mergulho interior, onde nosso orgulho e vaidade são praticamente isolados. Uma viagem aos limites dos sentimentos. Como é uma ação praticamente impossível de mensurar, acredito que pouquíssimas pessoas conseguem fazê-la de verdade.

Quando alguém nos trai, nos rouba, nos fere física ou psicologicamente, é natural, instintivo que taxamos essa pessoa de horrível, monstruosa, alguém de quem se quer distância, quando não muito desejamos todos os infortúnios do mundo a ela.

De um ponto de vista filosófico acho que perdoar é algo sublime, cujo estigma de quem o pratica é de alguém com uma superioridade de vida muito além. Em diversas passagens da Bíblia sempre o perdão se faz constante.

Muitas vezes confundimos relevar com perdoar. Pois acredito que sempre fica uma mancha, uma péssima lembrança do ocorrido.
É bem comum ouvir-se dizer: perdoa-se desde que a pessoa se arrependa do erro cometido e não mais o faça.

Mas em certas situações isso dificilmente se aplica. Tomemos com hipótese uma pessoa que se configure no mais ferrenho dos seguidores religiosos, independente qual caminho seguiu. Essa pessoa faz de tudo para por em práticas os ensinamentos que desenvolve em seu templo. De repente essa mesma pessoa passa por uma tragédia onde perde um filho assassinado. Por mais que pratique os rumos de sua crença, não vejo forças suficientes para que essa pessoa perdoe o assassino em questão.

Mesmo para casos digamos menos trágicos, com pessoas próximas de nosso dia a dia, pessoas com que convivemos familiar, social ou amorosamente, que às vezes fazem coisas e nos sentimos prejudicados, passamos a vê-las, tratá-las ou considerá-las de maneira diferente. Mesmo quando ocorre sem a mínima intenção, carregamos e atribuímos a elas uma carga de culpa, que dificilmente cessa. Muitas vezes até injustamente, diga-se de passagem.

"Talvez" perdoar soe como uma limpeza. Esvaziamos nosso coração de sentimentos ruins e o deixamos apto para coisas novas, boas, motivadoras e regozijastes emoções. Como se fosse retirar o lixo de dentro da casa, como se limpasse a sujeira com água e sabão, deixando um odor agradável para se ambientar.

Mas, em tom de ênfase, praticar isso é uma arte, é realmente algo que se aproxime do divino, de quem detém uma luz muito mais intensa do que a que exalamos a cada dia. Aos olhos externos, não é incomum a pessoa que perdoa ser taxada de idiota, tola. Mas no interior dela com certeza transitam doses incontáveis de felicidade.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Bullying - palavra nova, prática antiga





Muito em voga ultimamente está o tal do bullying.
Atribui-se inclusive ao psicopata protagonista da tragédia na escola do Rio de Janeiro.

A palavra, oriunda do inglês Bully ("valentão) refere-se a atos de violência física ou verbal, praticada com constância contra vítimas incapazes de se defender.

Normalmente praticada em idade escolar, onde os primeiros grupos sociais são formados na vida das pessoas, o bullying agride indefesos, deixando em alguns casos, marcas psicológicas em suas vidas adultas.

Concordo, mas uma coisa também sei.
No mundo moderno a palavra pode ser nova, mas esses atos ocorrem há muito e muito tempo. Quem nunca viu isso em escola? Seja dos anos 50, 60, 70, 80 ou nos atuais?

Os filmes americanos sobre adolescente sempre mencionam ações das fraternidades contra nerds ou esquisitos.
Quem nunca viu o Bart Simpson sofrer nas mãos do Nelson, na série de desenho animado que leva seu sobrenome?

Nunca fui exatamente "agredido", mas tive vivência disso no meu tempo de escola primária (como era chamada na época). Quem nunca viu criança por apelido em criança? Um misto de ingenuidade com os primeiros passos de malícia, faz com a criança invariavelmente atinja outra, principalmente em termos de aparência física. Noções de respeito às diferenças, tolerância, senso de convívio social são elementos que só se instauram na personalidade de uma pessoa numa fase pós-adolescência....(Em muitos casos infelizmente eles nunca chegam.....).

Nem por isso tivemos um exército de psicopatas oriundo de décadas passadas, praticando atos terroristas hoje em dia....

Temos casos isolados, de pessoas com personalidades inconstantes que podem sim ser afetadas por esses atos.
São as mesmas crianças que podem vir a se tornar agressivas ou problemáticas em sua fase adulta, ao verem os pais brigando, ao serem exploradas sexualmente, ao serem escravizadas com trabalho infantil.

E muitas vezes as crianças que sofrem com esses abusos não se manifestam aos pais ou pessoas próximas. Talvez por vergonha, ou por tentar querer esquecer, elas guardam consigo, alimentando e amadurecendo seu ódio.

Outra coisa que podemos colocar em reflexão é a violência muito mais presente hoje na criação de nossos pequenos indivíduos, seja na TV, na família, nas ruas...Com muito mais profusão do que nas décadas passadas.

O Youtube se tornou uma fonte de informação. Recentemente um vídeo que teve bastante repercussão foi a reação de um garoto gordinho que, ao cansar de ouvir gozações de um colega, o agarra e o arremessa ao chão, ferindo-o consideravelmente. Apesar das imagens fortes, o vídeo surtiu um sentimento de justiça pra muita gente. Era a vingança do mais fraco (em termos de coragem pelo menos) contra seu agressor.

Hoje pais e educadores buscam soluções para reduzir essa prática, que nasce no intuito de alguém querer se impor e se sentir melhor que outro. E que se torna poderoso quando ocorre a formação de grupos. Desavenças sociais de cunho infantil e adolescente sempre existiram e sempre existirão. O que acredito que devemos evitar é a facilidade com que a violência conviva nesse meio e expurgar desde cedo nessas crianças a idéia da impunidade. Transformar a "beleza" dessa valentia em punição corretiva.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Vidas à mercê da demência humana



Não existem muito mais palavras para impactar ainda mais o transtorno que essa tragédia com as crianças do Rio de Janeiro, assassinadas por aquele demente.


Citar o nome dele é relembrar, dar a ele o que ele queria: seu lugar na história. Ele não deve ser lembrado. Ele sequer merece que saibamos que ele existiu entre nós e que foi chamado de humano.


Estamos à mercê de loucos. Sempre houve dementes que sangraram o mundo com suas demências. Mas a maioria histórica o fez por poder ou fundamentalismo religioso.


Podem dizer quaisquer causas psicológicas, falta de Deus no coração, falta de estrutura familiar, stress da vida moderna, drogas. Mas não é concebível, não consigo processar em meu cérebro a idéia de que, mesmo alguém com tanta alteração psíquica possa ter tanto sangue frio a ponto de fazer tal ato contra seres tão indefesos e inocentes.


Agnósticos ou ateus poderiam questionar onde estava Deus quando essas 13 crianças precisavam de sua proteção? Claro que até mesmo o mais distante crente na fé, sabe que as promessas Dele são além terrestres, e sua influência em nosso dia a dia incide em abrandar corações. Não existirão nunca ações físicas.


Um animal ataca quando se sente ameaçado. Mas um animal não pensa. Não raciocina. Não cria idéias anarquistas ou macabras, não faz nada por vaidade.


Claro que centenas de discussões acerca de reforço de segurança nas escolas vão inundar a mídia nas próximas semanas.


Mas além de nos sentirmos inseguros dentre de nossa casa, dentro de nosso carro, no trabalho ou na diversão, por conta da violência patrocinada pelo bandidismo, temos agora mais uma dose de medo para conviver: a ação de psicopatas.


Mesmo que tornemos as escolas verdadeiros quartéis do exército, talvez não estejamos livres de doentes que possam cometer atos brutalmente similares, em shoppings, igrejas, restaurantes. Quem não se lembra do atirador do cinema do shopping?


Não existe uma solução para que nossos jovens se deixem deturpar. Mas talvez exista um pacote de soluções. Como um coquetel de remédio para tratar uma doença. Um pacote que inclua: educação familiar, escolaridade, combate ao uso de armas.


Enquanto isso, temos que viver sob a aura da loucura. Sangramos na dor junto com esses pais, cuja vida de agora pra frente não poderá viver sem o elemento desespero.


Somos parceiros na dor e no inconformismo deles. Mas somos ao mesmo tempo alvos. Alvos da demência humana.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Liberdade de Expressão X Racismo



A mais recente polêmica, patrocinada pelo deputado Jair Bolsonaro, que em entrevista recente ao programa CQC, da TV Bandeirantes, externou opiniões racistas sobre homossexuais e negros, acende uma discussão delicada entre sociedade, legislação e imprensa.


Até onde o direito de expressar opiniões sai do campo da liberdade de expressão e entra no campo de promoção do racismo e intolerância. Esse deputado vive freqüentando programas de televisão propagando suas idéias. E de tão extremo em suas afirmações, talvez muitos destes programas transformam essas idéias absolutas em combustível para sensacionalismo.


Evidentemente que sempre creio na igualdade entre pessoas e repudio qualquer forma de agressão por diferenças étnicas, sexuais ou religiosas. Mesmo agressões verbais.


Tenho claros meus pensamentos acerca do que acho uma vida saudável socialmente. Qualquer ramo social pode viver decentemente ou como disse o deputado Jair Bolsonaro, promiscuamente. Não importa se hétero, homossexual, hippie, evangélico, umbandista, asiático, índio, não importa qual inclinação a essa ou aquela condição social. O cidadão pode ser uma pessoa honesta, trabalhadora, de boa vivência familiar, de boa índole e educação. Ou pode ser e viver ao contrário de tudo isso.


Somos todos iguais. E por conta disso também sou contra qualquer coisa que especifique ou diferencie uma pessoa. Sou contra quaisquer leis que possam trazer benefícios específicos. Alguém pode dizer que estou sendo confortável em falar disso. Mas eu acredito, por ter vindo de um berço dos mais humildes, tudo que conquistei foi fruto de trabalho árduo, estudo, dedicação. Não sou dono da MMX mineradora, nem Ministro do STF, mas ainda estou lutando pelo meu espaço. E acredito que qualquer pessoa possa ter o espaço e vivenciar o que vivi, não importa a cor da pele, a preferência sexual ou a inclinação religiosa. Todos podem crescer e amadurecer, só depende de cada um.


Não podemos permitir que o ódio às diferenças se transforme em intolerância e agressão. Desde os primórdios de nossa existência, pessoas se matam por diferenças religiosas, milhões foram mortos em guerras por diferenças raciais, gays são atacados por grupos extremistas, negros sofreram muitas agressões e segregações, foram escravizados. Pura e simplesmente porque uma pessoa pensa - e pensa coletivamente - que é melhor que outra.


Mas também temos que ter todo o cuidado pra que nossas opiniões sinceras desde que não ofensivas, sejam consideradas ofensas e incitações gratuitas. Por exemplo, seu eu chego a público e digo: "Não gostaria que meu filho nascesse ou adquirisse tendências homossexuais. Essa é minha preferência, mas se acontecer vou amá-lo e apoiá-lo pra ter uma vida digna". Isso é afrontar alguma organização anti-preconceito? Isso é espalhar ódio racial? Agredir alguém que não pensa ou viva com eu?


A palavra é poderosa. A expressão tem que ser livre, desde que não machuque ninguém.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Fumaça Tóxica, garantida pelo Ministério da Saúde



O assunto agora é cigarro.
Pra deixar claro que este post é tão somente uma reflexão e não uma tendência, gostaria de dizer que não fumo. Experimentei uma vez enquanto pré-adolescente e não gostei. Meu pai fumava, tive namoradas que fumavam, tive e tenho amigos que fumam. Mas não sou daqueles que se incomodam tanto com fumaça de cigarro no ambiente, como muita gente que conheço.

O que me motivou a levantar a idéia a seguir foi um cartaz que vi recentemente num posto à beira de rodovia.

O Ministério da Saúde lançou em 2001, uma campanha onde obrigou os fabricantes a estamparem fotos chocantes nos maços de cigarro, no intuito de tentar reduzir o consumo. Imagens fortes, de pessoas em estado terminal, fetos, pessoas mutiladas. Além da obrigatoriedade de exibir mensagens informando dos males do produto, em jornais, TVs, rádio e em qualquer veículo de mídia.

Mas mesmo assim eu acredito que a pessoa que tenha dependência do cigarro pouco vai mudar seu hábito por conta destas campanhas, pelo menos quase todas as pessoas que conversei disseram que isso não faz efeito.

Mas o que eu realmente gostaria de saber é o seguinte: se o Ministério da Saúde afirma que: "Este produto tem mais de 4.700 substâncias tóxicas.....", "...que causa dependência física e psicológica...", porque ele o libera para o consumo?

Eu lhe pergunto, se você freqüentasse uma piscina que tivesse o seguinte cartaz: "Esta água contém substâncias químicas que fazem mal à saúde", você deixaria seu filho se banhar nela?

Se fosse ao supermercado e no açougue tivesse o seguinte aviso: "A carne vendida aqui tem 5.000 substâncias químicas", você compraria algo pra servir no seu jantar familiar?

Se estivesse num shopping ou em qualquer outro lugar público, e lá se deparasse com dois bebedouros. Um deles dizia: "Água Pura", e o outro: "Água com substâncias cancerígenas". De qual dos dois você se utilizaria pra saciar sua sede?

Evidentemente que sabemos dos interesses econômicos que ocorrem por traz da venda de cigarros. Impostos arrecadados, empregos, ações, muitos agentes sociais envolvidos.

Se os Estados Unidos estão sofrendo pra impedir o consumo aberto de tabaco por lá, imagina a guerra de interesses que seria por aqui....

Mas é impossível não ser racional o mínimo que se possa ser, e pensar que nosso Ministério da "Saúde", libera pra consumo público algo que faz mal à "saúde". Pelo menos pra mim isso é incoerência.

Também brinca de ser óbvio o fato de que muitos alimentos vendidos que contém conservantes, bebidas alcoólicas, também possuem muitos elementos químicos em sua fabricação. Mas nenhum deles necessita de alertas tão tonificados quanto os avisos dos maços de cigarro.

Com respeito a quem consome, mas esses avisos me lembram mais aquela caveira estampada em vidros de veneno.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Melhorar


Os dicionários descrevem o verbo melhorar como o ato de tornar algo melhor. Fugindo da obviedade, os dicionários categorizam o termo melhor de várias formas, "Mais bem, de modo mais perfeito, com mais justiça ou verdade, com mais apreço, comparativo irregular de bom, que é mais bom, superior a outro em bondade ou em qualidade". Em suma sair de um estágio e ir para outro, acarretando satisfação pela mudança.

Na vida moderna, a nossa melhora geralmente está vinculada às melhoras de nossos bens e pertences. Melhorar o padrão de nossa residência, melhorar o modelo do carro, melhorar o nível de decoração, melhorar o guarda-roupa e o que tem dentro dele.

Do ponto de vista orgânico, melhora-se saudavelmente, seja curando-se de algum mal que lhe atormenta, seja melhorado a aparência física.

Do ponto de vista social, melhora-se o cargo, o emprego, melhoram-se os resultados de sua empresa, melhora-se a organização de seu ambiente de trabalho.

Um time de futebol tem um certo desempenho; aplicando-lhe melhorias, vai obter resultados mais abrangentes, ou seja vai ter mais vitórias.
Uma músico ou banda quando melhora seu desempenho, pratica melhores shows e melhores composições.

Ou seja, deixamos pra traz resultados indesejados e passamos a ter outros que nos satisfazem mais.

Mas talvez a grande melhora que devamos buscar, mesmo que não consigamos no ver externamente, é a melhoria como ser humano. Essa é uma mudança tão complicada.

Filosofias orientais pregam que o amadurecimento do espírito faz o ser humano ter atitudes mais racionais e comedidas.

Todo mundo acha é bom. Acha que é o mais trabalhador, acha que o mais justo, o mais inteligente, o mais sensato.

Difícil enxergamos nós mesmos como realmente somos aos outros.

Muitas vezes devemos nos perguntar, será que somos tão pacientes como acreditamos ser? Será que ajudamos pessoas atacando as suas verdadeiras necessidades? Será que somos tão amigos assim de nossos amigos? Será que somos tão bem educados? Será que somos os melhores pais, maridos e esposas do mundo, como acreditamos ser?

É evidente que, em nosso meio social, nos deparamos com pessoas extremamente agradáveis, daquelas que se dá gosto conviver e outras no exato sentido contrário, que só de pensar, bate aquela vontade de estar a milhares de quilômetros de distância. Mas tanto essa pessoa extremamente alegre e que exala luz, quanto o seu reverso, que é rude e emburrado, não têm a exata noção de como eles são aos olhares e ouvidos alheios.

E no meio deles estamos nós, levando lampejos de luz de um e de trevas do outro às pessoas a nossa volta.

O que sei é que algo bom querer melhorar como ser humano.

Eu costumo dizer que ninguém é perfeito. Mas buscar a perfeição, usando-se de bom censo, é algo extremamente positivo.

Tentar melhorar já é melhorar.
O pouco que conseguirmos com essa tentativa, nos trará bons frutos juntos às pessoas de nosso convívio, e por conseqüência, resultados mais felizes.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

O amargo veneno do escorpião



Este ano deve estrear nos cinemas o filme baseado no livro "O Doce Veneno do Escorpião", de autoria de Raquel Pacheco, mais conhecida como Bruna Surfistinha, ex-garota de programa.

O filme cria muita expectativa, acerca de sua produção e seus atores conhecidos. Afinal é sempre desafiador pra quem vive da arte cênica interpretar personagens que vivem na marginalidade, ou envoltos em tabus.

Mas será que a estória (ou as estórias) de vida de uma garota de programa, estampadas numa película de um longa, não se aproxima muito de uma heroização muito pretensiosa de algo que no meu entender não merecia tanto?

Acredito ser desnecessário relembrar e enfatizar meu respeito às escolhas de cada um, a forma como conduzem e vivem a vida e mostrar o quão nulo é algo que não vive em mim: o preconceito.

Minha avó Maria de Jesus, veio de Portugal no começo do século passado, de navio, casada novinha, teve nove ou mais filhos, veio enfrentar uma terra desconhecida, cuidar de lavoura, enfrentar as barras de uma vida sem muitas expectativas, recursos ou vislumbres de riqueza.
Assim como ela, milhares de imigrantes de todas as raças assim o fizeram.

Será que essa estória de vida não seria algo que mais se aproximava de uma brava e heróica epopéia?

Não queria aqui banalizar a discussão daqueles jargões populares na linha: "lavar roupa ninguém quer".

A prostituição é um assunto polêmico, desde as eras bíblicas. Por isso mesmo ilustra hoje as palavras deste post.

Em entrevista ao programa do Jô Soares a autora do livro (também atriz de filmes pornográficos), afirma que chegou a situações onde manteve relações com cinco pessoas ao mesmo tempo.
Pra alguns isso seria heróico, pra mim não.

Entendo as dificuldades da vida, muito bem obrigado. Vivemos num país em desenvolvimento mas com pés e mãos ainda no terceiro mundo. Oportunidades de bons empregos e crescimento pessoal são cada vez mais disputadas. Mas tudo isso não seria desculpa pra se vender o corpo, perder os valores próprios, os valores de honra. Uma das coisas mais preciosa de uma pessoa é sua intimidade, que acredito deva ser compartilhada de maneira especial e emotiva. Não de uma forma brutalmente comercial.

Evidentemente que a classe dos profissionais do sexo tem a visão deles e não concordariam muito com alguns dos pontos de vista aqui sinalizados.

Em suma, a intenção deste post não é deflagrar opiniões acerca do conceito de sexo por dinheiro mas sim colocar em discussão em torno de uma vanglorização exarcebada que um filme possa dar a atividades marginais (pros mais desatentos, atividades que vivem à margem dos padrões sociais) em detrimento a outras estórias de vida consistentes de suor, sangue, amor, dedicação e fé.

Muito mais dignas, em minha opinião, de simbolizar heroísmo.

Cinema é arte, e arte não deve ter limites. Deve navegar pelo belo, pelo bizarro, pela angústia, pela alegria, pelo medo e pelo prazer.

Mas cinema biográfico tem lá sua parcela de impacto social.